Histórias que curam: intuição, confiança e segredos

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Seguir a intuição é uma boa escolha

Contos de fada e histórias são parábolas de situações chave na nossa vida e nos ajudam a entender como podemos lidar com elas.

No livro “Mulheres que correm com lobos”, a psicanalista Clarissa Pinkola Estés conta várias histórias e analisa sua relação com as crises e conflitos comuns nas vidas das mulheres.

Um destes contos é o do Barba Azul.

Barba-Azul era um mago fracassado que cortejava três irmãs, mas elas, por alguma razão instintiva, tinham pavor da sua barba azul. A irmã mais nova, porém, por ser a mais inocente, após passar bastante tempo com o Barba Azul, começou a achar que ele talvez não fosse tão mau assim e aceitou se casar com ele.

Barba Azul, porém, mantinha um quarto secreto fechado no alto do castelo, dentro do qual não permitia que ninguém entrasse, nem mesmo sua esposa. Um dia, ele foi viajar e entregou uma pequena chave à mulher, orientando-a para que em hipótese nenhuma usasse essa chave, que abria a porta do quarto secreto.

Sozinha no castelo, a esposa convidou suas irmãs mais velhas para passar o dia com ela, e, ao saberem da chave e do aposento secreto, estas insistiram em abri-lo. Quando o fizeram, gritaram aterrorizadas: no quarto havia cadáveres entre poças de sangue e ossos humanos. A irmã mais nova fechou a porta apavorada, apenas para descobrir, mais aterrorizada ainda, que a chave estava suja de sangue. Ela se apressou em limpá-la no seu vestido, mas, quanto mais limpava, mais jorrava sangue da chave.

Neste momento, ouviu-se um barulho: era Barba Azul, que voltava da viagem. A esposa tentou disfarçar e o recebeu bem, mas, quando ele pediu de volta a pequena chave, ela inventou que a perdera. Imediatamente, Barba Azul se tornou louco de fúria e disse que iria matá-la. Ao invés de fugir ou reagir, a irmã caçula concordou, mas implorou por alguns minutos para se preparar para morrer. “Está bem, mas prepare-se”, gritou o marido.

Ela então se apressou a chamar seus irmãos. Ordenou às duas irmãs mais velhas que fossem para a murada do castelo esperar pela chegada deles. Logo que Barba Azul gritou que seu tempo tinha acabado e ela pôde ouvir seus passos pesados e sombrios, perguntou: “Irmãs, vocês estão vendo nossos irmãos?”. “Não vemos nada”, responderam as mais velhas. Barba Azul se aproximava cada vez mais com seus pesados passos subindo as escadas e seus gritos ameaçadores de que sua hora havia chegado. “Irmãs, vocês estão vendo nossos irmãos?” ela perguntou mais uma vez. “Não vemos nada.” Quando Barba Azul estava a poucos degraus do local onde ela se escondera, e já era possível sentir o cheiro da morte, ela perguntou, pela última vez: “Irmãs, vocês estão vendo nossos irmãos?”. “Sim!”, responderam as irmãs, “eles acabaram de chegar e estão derrubando a porta do castelo!”. Assim, Barba Azul é trucidado pelos irmãos da esposa e seus ossos são abandonados aos abutres.

shutterstock 127360631 Histórias que curam: intuição, confiança e segredos

  O que essa história diz sobre você?

Essa história visa alertar as mulheres sobre o risco de serem inocentes e não prestar atenção à sua intuição. Desde o início, elas sentiam um medo “que não conseguiam explicar” da barba azul do mago – este medo instintivo nada mais era do que a sua intuição alertando-as a ficarem longe dele.

Porém, a mais nova, justamente por ser a mais ingênua, logo começou a pensar que talvez ele não fosse tão mau assim, e se deixou seduzir. Barba Azul, como qualquer predador, percebe a inocência da mais jovem e, por isso mesmo, a escolhe como presa, investindo mais ainda seus esforços de sedução nela.

Adiante, após se tornar sua esposa, a caçula soube que havia algum grande segredo horrível escondido no quartinho em que não podia entrar, mas novamente optou por continuar vivendo sua vida de sonhos sem averiguar a verdade. Novamente, são suas irmãs mais velhas, representando o lado menos ingênuo da própria esposa, que decidem abrir o quarto e revelar o segredo. Elas representam a parte da mulher que começa a se dar conta de que, se há algo de secreto e sombrio, é preciso que seja examinado.

Apavorada com o que descobre, a esposa tenta fechar a porta e esquecer o que viu. Isso, porém, não é mais possível. A impossibilidade de esquecer e enterrar novamente um segredo tão sujo e horrível é representada pelo fato de a chave não parar mais de sangrar. Assim, não é possível ignorar o que se descobriu e ela precisa enfrentar o marido.

Uma parte muito importante, é o fato de ela, inicialmente, fingir concordar em ser morta e pedir um tempo para se organizar. Este tempo é imprescindível para que a pessoa possa se organizar e planejar como lidar com a nova realidade, preparar sua fuga e reunir seus recursos internos que vão lhe permitir sair inteira da situação. Então, ela apela para seus irmãos homens, que representam, no conto, a parte agressiva, a força e a ação que se fazem necessárias, mas que ela, antes, não conseguia ter. Os irmãos, ou seja, a força que ela precisou de um tempo para reunir, finalmente matam Barba Azul e libertam a mulher para a vida.

Quase todos já passamos por situações nas quais descobrimos algo que não nos permitiu mais ver a vida do modo anterior, por mais que ela fosse mais “agradável” antes. Todos já vivemos situações em que algo que nos parecia dourado começou a dar mostras de não ser tão perfeito assim, e sabemos que o primeiro impulso é desejar que não tivéssemos percebido e que a ilusão e, portanto, a falsa sensação de felicidade pudesse não se perder. Todos já vivemos momentos em que ficamos tão aturdidos por uma descoberta horrível que precisamos de um tempo para nos recompor e decidir como agir.

E, o mais importante, todos possuímos, dentro de nós, os recursos e as ferramentas necessárias para fazer o que precisa ser feito – mesmo que demore um pouco para os encontrarmos e estarmos fortes o suficiente para usá-los.

Leia também: Casais em crise

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Juliana Garbayo

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Graduada em Medicina na Universidade Federal Fluminense (UFF). Cursou Residência Médica em Psiquiatria na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ-IPUB)


Postado em por Juliana Garbayo em Dicas

7 Respostas para Histórias que curam: intuição, confiança e segredos

  1. Nilza Cardoso Meirinho

    Muito interessante! Acho que, principalmente as mulheres deveriam ler,e saber desvendar o seu lado intuitivo que todas nós temos.

  2. Jacinta Peres Carvalho

    Amei seus contos Dra Juliano Garbyo, parabéns. que Deus te abençoe sempre.

  3. Lívia

    Seu texto caiu em meus olhos agora através de uma curtida de um amigo, na sua página de facebook. Só posso te garantir uma coisa:Deus fala na hora certa e de onde menos esperamos.Obrigada por essa esclarecedora reflexão.

  4. Maria José Santil Machado

    Já tinha lido alguns artigos sobre o assunto e tenho prestado muito atenção quando leio determinados contos . Continuarei acompanhando seus ensinamentos.

  5. Juliana Garbayo

    Não é interessante, Maria José? Quando a gente começa a perceber as “mensagens” por trás dos contos? ;) Bj!

  6. Juliana Garbayo

    Que legal, Lívia! Fico feliz em saber! Apesar de que eu acredito que você estava com o olho “afiado” para esse assunto exatamente porque uma parte do seu cérebro devia estar procurando por ele…de qualquer forma, fico muito feliz que tenha te ajudado a refletir sobre a sua vida…que você faça as escolhas certas e seja muito feliz!

  7. Juliana Garbayo

    Obrigada, Jacinta! Fique com Deus você também! Bj

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