Detenção

Este filme americano estrelado por Adrien Brody e Forest Whitaker conta a história de um grupo de homens que se voluntariou para um experimento psicológico no qual seria reproduzida uma prisão. Os voluntários foram divididos,

aleatoriamente, em guardas e prisioneiros. Os guardas foram estimulados a manter a ordem na prisão, mas não poderiam usar violência física para este fim. Câmeras instaladas nas celas e no restante do ambiente mostravam o comportamento de ambos os grupos 24 horas por dia.

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O experimento, planejado para durar 14 dias, rapidamente fugiu do controle e precisou ser interrompido no sexto dia, após uma escalada impressionante de violências, humilhações, atos sádicos por parte dos “guardas” e rebeliões e fortes perturbações psicológicas entre os “presos”. O mais interessante é que a experiência na qual o filme é inspirado realmente aconteceu: trata-se do experimento da Prisão de Stanford.

O experimento, na vida real, foi levado cabo, em 1971, por uma equipe de pesquisadores liderada pelo professor Philip Zimbardo, da Universidade de Psicologia de Stanford. Zimbardo queria testar a teoria segundo a qual pessoas que passam a fazer parte de um grupo coeso no qual as características individuais se diluem e ao qual é dado poder tendem a perder a sua identidade pessoal, consciência e senso de responsabilidade, o que favorece o surgimento de impulsos antissociais e até cruéis dirigidos contra as pessoas sobre as quais exercem poder.

A prisão

Uma réplica perfeita de uma prisão foi montada no subsolo da faculdade de Psicologia de Stanford, em Palo Alto, Califórnia. Dezoito voluntários saudáveis mental e fisicamente e sem antecedentes criminais foram aleatoriamente divididos em dois: nove fariam os papéis dos guardas e os outros nove de prisioneiros. Os participantes eram todos do sexo masculino, e, na sua maioria, brancos de classe média. A ausência de relógios ou de aberturas que permitissem ver a luz do dia contribuíram para deixar os presos desorientados no tempo.

Um detalhe curioso: entrevistados após o término do experimento, os prisioneiros acreditavam piamente que os “guardas” tinham sido selecionados por serem mais altos e fortes, mas, na verdade, o método de seleção foi completamente aleatório (através de uma moeda jogada para o alto, fazendo cara-ou-coroa) e não havia nenhuma diferença objetiva de estatura entre os grupos.

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Os Guardas

Os guardas ganharam cassetetes de madeira, uniformes de estilo militar de cor beije e óculos escuros espelhados para evitar o contato visual. Os presos ficavam confinados 24 horas por dias nas celas, mas os guardas trabalhavam em turnos de oito horas e podiam voltar para casa nas horas livres. Outro detalhe intrigante é que, com o passar dos dias, vários guardas não quiseram mais voltar para casa e se voluntariaram para horas-extras sem pagamento.

Os Presos

Os prisioneiros usavam apenas roupões, sem roupa de baixo e chinelos de borracha. Estas roupas tinham o objetivo de privar os homens do senso de masculinidade e igualar todos; rapidamente se observou que alguns presos passaram a caminhar e se mover de forma diferente do seu habitual e a adotar posturas corporais estranhas. Eles receberam números ao invés de nomes; estes números foram costurados aos seus uniformes. Para simular o cabelo raspado, eram obrigados a usar meias de nylon na cabeça. Correntes foram amarradas em seus tornozelos como uma lembrança permanente (inclusive durante o sono) do confinamento e da subjugação.

As regras

Um dia antes do início do experimento, os guardas foram orientados de que o bom funcionamento da prisão era sua obrigação e que poderiam usar os meios que julgassem adequados para garantir a calma no local – apenas violência física não seria permitida. Zimbardo deu as seguintes orientações aos guardas: “Vocês podem gerar nos prisioneiros sentimentos de tédio, de medo até certo ponto, transmitir-lhes uma noção de arbitrariedade e de que suas vidas são totalmente controladas por nós, pelo sistema, por vocês e por mim, e não terão privacidade alguma… Nós vamos privá-los de sua individualidade de diversas maneiras. De um modo geral, isso fará com que eles se sintam impotentes. Isto é, nesta situação, nós vamos ter todo o poder e eles nenhum. “

Os voluntários escolhidos para o papel de presos foram liberados sob a orientação de esperar em casa até serem convocados.  Sem nenhum outro aviso, eles foram acordados no meio da noite em suas casas, pela polícia, acusados de roubo armado e presos. Esta prisão foi feita por policiais de verdade, uma vez que Zimbardo conseguiu o apoio departamento de polícia local de Palo Alto. Eles então foram fichados, suas impressões digitais foram coletadas, tiveram seus direitos lidos e foram despidos, revistados e “higienizados”, recebendo a seguir seus trajes com os números de identificação e conduzidos às suas celas.

A escalada do sadismo

Para surpresa dos pesquisadores, o experimento rapidamente saiu de controle. Os guardas logo passaram a submeter os presos a toda sorte de humilhações, que foram, inicialmente, aceitas pelos prisioneiros, até que estes começaram a apresentar severos distúrbios emocionais. Já no segundo dia eclodiu uma rebelião, na qual os prisioneiros rasgaram os números de suas roupas e retiraram as meias das cabeças, desafiando a autoridade dos guardas. Estes se reuniram e decidiram reagir, o que fizeram atacando os prisioneiros com o gás dos extintores de incêndio, sem a supervisão do grupo de pesquisa. Dividiram os presos em dois grupos, de “bons” e maus presos e, pouco depois, colocaram alguns presos “bons” no grupo dos “maus” e vice versa. O objetivo era confundir e dividir os presos, levando-os a acreditar que havia “informantes” infiltrados. A medida é comumente usada por guardas de verdade nas prisões reais e logo surtiu o efeito esperado: os presos se tornaram extremamente desconfiados e estressados e não ocorreram mais grandes motins.

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 Humilhações e punições

Os guardas então transformaram o momento de “contagem” dos prisioneiros em cenas de humilhação, que podiam durar longas horas e se repetir várias vezes ao dia e até no meio da noite. Passaram ainda a destratar os presos, impondo-lhes castigos físicos como flexões intermináveis e trabalhos humilhantes e insalubres, como limpar privadas com as próprias mãos. Privação de comida e do direito a usar o banheiro começaram a ocorrer frequentemente, de forma que rapidamente a prisão foi tomada por um cheiro insuportável de urina e fezes. Colchonetes e mantas foram removidos e os presos obrigados a dormir no cimento duro, às vezes sem qualquer roupa. Um prisioneiro foi colocado na solitária para passar a noite inteira lá, quando havia uma regra clara de que a permanência máxima permitida na solitária seria de uma hora. Ao fim de três horas, os pesquisadores precisaram intervir ativamente, retirando o preso da solitária e reconduzindo-o à sua cela. Alguns prisioneiros foram obrigados a ficar nus e sofreram humilhações sexuais.

O envolvimento do pesquisador

Zimbardo descreve, em o que pode ser entendido como um mea culpa, que ele próprio, talvez por ter se colocado no papel de superintendente da prisão ao invés de permanecer como observador externo, começou a se sentir cada vez mais envolvido na experiência. No quarto dia, ao ouvir um rumor sobre um plano de fuga, tentou transferir o experimento inteiro para uma prisão verdadeira que se encontrava desativada, mas tal ato não foi autorizado pela a polícia local. Zimbardo admitiu ter ficado particularmente irritado com o que considerou uma “falta de cooperação” das autoridades locais. À medida que o experimento prosseguia, os guardas foram se tornando cada vez mais sádicos, especialmente à noite, quando acreditavam que não havia pesquisadores por trás das câmeras, assistindo. Segundo os psicólogos, um terço dos guardas apresentou tendências sádicas “genuínas”.

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Um prisioneiro chegou a desenvolver rash cutâneo por todo o corpo após ter sua “liberdade condicional” negada em uma simulação. Outro preso precisou ser retirado, após sofrer crises de choro compulsivo, desorganização do pensamento e implorar pela liberdade. Enquanto este preso conversava com Zimbardo em uma sala reservada,  os guardas organizaram um coro com todos os outros presos cantando em uníssono que o “preso” que estava na sala era “um mau preso”. Desesperado, o voluntário, que já tinha obtido autorização para deixar o estudo, voltou a chorar incontrolavelmente e a dizer para Zimbardo que precisava voltar para a prisão, pois seria considerado um “mau” preso, enquanto chamava a si mesmo pelo seu número de identificação. Foi necessário Zimbardo dizer claramente ao voluntário: “Você não é um preso. Você é um estudante e o seu nome é “Fulano”. E eu não sou o superintendente da prisão, sou um psicólogo e isso é apenas um experimento.”  Só então o estudante conseguiu se acalmar e pôde ir para casa, sendo substituído por um voluntário “reserva”.

O fim do experimento

No sexto dia, o experimento, que duraria 14 dias, precisou ser interrompido.

 Zimbardo só tomou esta decisão após uma pesquisadora independente visitar o local a seu convite e se mostrar chocada com a forma como os presos estavam sendo tratados, chamando a atenção de Zimbardo para as sérias questões éticas envolvidas.

Dois filmes foram baseados neste polêmico experimento: “A Experiência”, lançado em 2001 e “Detenção”, uma refilmagem do primeiro, lançado em 2010. Embora o filme coloque a morte de um voluntário – o que não chegou a ocorrer – no restante é relativamente fiel aos acontecimentos reais.

Se você se interessou pelo macabro experimento da prisão de Stanford, visite a página oficial da pesquisa clicando aqui: http://www.prisonexp.org

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Juliana Garbayo

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Graduada em Medicina na Universidade Federal Fluminense (UFF). Cursou Residência Médica em Psiquiatria na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ-IPUB)


Postado em por Juliana Garbayo em Filmes sobre psiquiatria

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